Ideias em sintonia: O cérebro coletivo por trás da criatividade em grupo

Grupo de cinco pessoas lado a lado com ilustração de conexões de ideias neurais luminosas unindo seus cérebros, simbolizando alinhamento e criatividade coletiva.

Em reuniões de trabalho, laboratórios ou estúdios de design, há momentos em que as ideias parecem surgir em sintonia. As palavras se completam, os raciocínios se entrelaçam e o grupo, por instantes, pensa como se fosse uma única mente. A ciência acaba de mostrar que essa sensação pode ter base biológica. Durante o chamado brainstorming, os cérebros literalmente se alinham. E, dependendo de como isso acontece, o resultado pode ser mais, ou menos, criativo.

Pesquisadores da Universidade de Haifa, em Israel, mostraram que a criatividade coletiva depende do tipo de acoplamento entre cérebros que ocorre quando as pessoas colaboram. Usando a técnica chamada espectroscopia funcional no infravermelho próximo (fNIRS), eles registraram a atividade cerebral simultânea de 88 voluntários, distribuídos em grupos de quatro pessoas, durante discussões criativas. O estudo, publicado na revista Communications Biology, revelou que o modo como as ondas cerebrais se sincronizam pode determinar se um grupo tende a inovar e possibilitar maior criatividade ou não.

A mente coletiva sob o infravermelho

Os participantes foram convidados a discutir soluções criativas para dois desafios. O primeiro era propor novos usos para objetos comuns, como uma chave ou um sapato, já o segundo era imaginar estratégias para evitar que um ovo se quebrasse ao cair de um prédio. Enquanto conversavam, sensores instalados em toucas mediam o fluxo de oxigênio no sangue em regiões específicas do cérebro.

O foco estava em duas áreas. A primeira, o córtex pré-frontal dorsolateral (DLPFC), área associada à flexibilidade cognitiva, a capacidade de mudar de perspectiva e testar ideias diferentes. A segunda, o giro frontal inferior (IFG), está ligada à imitação e à tendência de alinhar o comportamento com o dos outros. A hipótese dos autores era que essas duas redes refletiriam diferentes modos de funcionamento do grupo, evidenciando uma dualidade entre originalidade e conformidade.

Os resultados confirmaram o palpite. O alinhamento entre cérebros no DLPFC estava positivamente relacionado à criatividade do grupo, enquanto o acoplamento no IFG apresentou correlação negativa. Em outras palavras, quanto mais os cérebros se conectavam na região da flexibilidade, mais criativos eram os resultados; por outro lado, quando o sincronismo predominava na área da imitação, as ideias se tornavam mais repetitivas.

O equilíbrio entre pensar junto e pensar diferente

A pesquisa introduz uma distinção fundamental entre mentalidade de rebanho e mentalidade flexível. Herdar ideias alheias pode facilitar a cooperação, mas também levar à conformidade excessiva. O desafio, segundo os autores, é encontrar o ponto de equilíbrio, ou seja, colaborar sem perder a autonomia.

O acoplamento entre cérebros, medido pela coerência das ondas cerebrais entre os participantes, mostrou esse equilíbrio de forma matemática. O grupo que apresentava maior razão entre a sincronia no DLPFC e a sincronia no IFG produzia soluções mais criativas. Já quando a atividade no IFG dominava, a conversa se tornava redundante, com membros repetindo respostas uns dos outros.

Curiosamente, a criatividade individual não explicava o desempenho coletivo. Mesmo que os integrantes fossem criativos sozinhos, isso não garantia um bom resultado em equipe. O que importava era a dinâmica emergente do grupo, uma “mente coletiva” que se formava no diálogo.

Essa ideia dialoga com outras discussões sobre funcionamento coletivo do cérebro já exploradas na Biblioteca da Bittar Neurociência, como no artigo sobre sobrecarga cognitiva em tarefas colaborativas, que mostra como a dinâmica entre pessoas pode tanto potencializar quanto limitar o desempenho conjunto.

Como o cérebro da equipe cria

Esses achados se inserem em uma linha de pesquisa crescente sobre o cérebro social e o registro simultâneo da atividade neural de várias pessoas em interação, conhecido como hiperescaneamento. Estudos anteriores já haviam identificado acoplamento cerebral em tarefas cooperativas, com formação de duplas. Mas esta é uma das primeiras investigações a observar grupos de quatro pessoas, simulando uma situação mais próxima de reuniões reais.

A equipe de pesquisadores liderada por Hadas Pick e Simone Shamay-Tsoory argumenta que o acoplamento no DLPFC reflete um estado coletivo de flexibilidade cognitiva compartilhada, promovendo a capacidade de sustentar múltiplas ideias, alternar estratégias e incorporar perspectivas diversas. Já o acoplamento no IFG indicaria um estado de sincronização imitativa, útil para coordenar comportamentos, mas prejudicial à originalidade.

Essa oposição sugere que a criatividade em grupo não depende apenas do número de ideias, mas de como as mentes se conectam. O grupo criativo seria aquele capaz de sincronizar-se para compreender uns aos outros, mas não a ponto de uniformizar o pensamento.

Implicações para equipes e organizações

A pesquisa traz implicações diretas para o ambiente de trabalho, a educação e a inovação. Em empresas que valorizam o brainstorming, promover um clima de escuta ativa e independência intelectual pode favorecer o tipo de acoplamento cerebral que estimula a originalidade. A homogeneização de ideias, frequentemente incentivada por pressões hierárquicas ou culturais, tende a sincronizar os cérebros na direção errada.

Programas de treinamento voltados à criatividade colaborativa poderiam, no futuro, se beneficiar de tecnologias como o fNIRS para avaliar o nível de sincronia entre membros de uma equipe. Em laboratório, já é possível observar se um grupo está preso em um padrão imitativo ou se está mantendo a flexibilidade que gera inovação.

Os autores ressaltam que o estudo aponta um caminho promissor para entender os mecanismos cerebrais por trás da criação coletiva.

O cérebro como laboratório social

Mais do que uma curiosidade neurocientífica, o trabalho de Pick e colegas amplia a noção de criatividade como fenômeno social. Em vez de imaginar gênios isolados tendo lampejos de inspiração, a ciência começa a olhar para a criatividade como uma propriedade emergente de sistemas humanos conectados entre si.

Ao que tudo indica, pensar junto continua sendo essencial. Mas para que novas ideias floresçam, é preciso garantir que, mesmo em sintonia, cada mente preserve seu próprio ritmo.

O artigo intitulado “Brainstorming: Interbrain coupling in groups forms the basis of group creativity.”, foi publicado em 2024 na revista Communications Biology e os autores são Hadas Pick, Nardine Fahoum, Dana Zoabi e Simone Shamay Tsoory.