O que o olhar nos revela sobre o estresse na UTI

Olhar de enfermeiras enquanto atendem paciente em uma UTI enquanto monitoram sinais vitais, ilustrando o alto nível de atenção, carga mental e estresse no ambiente hospitalar.

Como o olhar das enfermeiras revela o peso do trabalho na UTI

Em meio a sons incessantes de monitores, luzes piscando e decisões que precisam ser tomadas em segundos, o olhar de uma enfermeira pode dizer mais do que mil palavras. Cada fixação, cada movimento ocular e até o diâmetro da pupila podem refletir o nível de estresse e de sobrecarga mental vividos durante um plantão. Essa é a premissa de um estudo conduzido por pesquisadores dos Estados Unidos, que usou tecnologia de rastreamento ocular para medir o esforço cognitivo e o estresse de enfermeiras de unidades de terapia intensiva (UTI) em tempo real.

Publicado na revista Human Factors and Ergonomics Society, o trabalho de um grupo de pesquisadores de Houston, Texas, propõe um olhar diferente sobre o que significa cuidar em um dos ambientes mais desafiadores, um hospital. Ao observar o comportamento ocular de profissionais da enfermagem, os autores mostraram que o estresse e a sobrecarga mental não são apenas sentimentos subjetivos, eles deixam marcas visíveis nos olhos.

Um laboratório dentro da UTI

A rotina de uma enfermeira de UTI é uma das mais complexas do sistema de saúde. É preciso monitorar equipamentos, administrar medicamentos, atender familiares e reagir rapidamente a emergências. Tudo isso exige alta concentração, raciocínio clínico e uma coordenação constante entre pensamento e ação. Até agora, medir o impacto mental dessa jornada era um desafio. Estudos anteriores se baseavam em questionários, índices de carga de trabalho ou medidas fisiológicas pontuais, como batimentos cardíacos e condutância da pele.

Essa dificuldade em mensurar a sobrecarga mental em ambientes críticos também é discutida em outros estudos da neurociência aplicada ao trabalho, como abordado na Biblioteca da Bittar Neurociência, que reúne pesquisas sobre carga cognitiva e desempenho humano em contextos complexos.

Os pesquisadores decidiram ir além. Em vez de confiar apenas em autorrelatos, colocaram sensores diretamente no corpo e nos olhos das profissionais, transformando o próprio ambiente hospitalar em um laboratório naturalista de neuroergonomia.

Participaram do estudo 21 enfermeiras de uma UTI cardiovascular do Houston Methodist Hospital, que foram monitoradas durante plantões completos de 12 horas, diurnos e noturnos. Cada participante usou os óculos Tobii Pro Glasses 2, equipados com câmeras capazes de registrar movimentos oculares, além de uma pulseira Empatica E4, que mede variações de batimentos cardíacos, temperatura e atividade eletrodérmica.

Os dados coletados permitiram avaliar métricas precisas do olhar, como número e duração das fixações, duração das sacadas, diâmetro pupilar e entropia do olhar (o grau de aleatoriedade na varredura visual). Ao mesmo tempo, o estresse fisiológico foi quantificado por meio do Índice de Estresse de Baevsky, calculado a partir da variabilidade dos intervalos entre batimentos cardíacos.

Mais carga mental no início dos turnos

Uma das perguntas centrais da pesquisa era se a carga mental das enfermeiras variava ao longo do plantão. O resultado foi revelador: embora o nível geral de esforço cognitivo fosse semelhante entre os turnos diurnos e noturnos, os momentos mais críticos aconteciam logo no início das jornadas, especialmente durante o período de passagem de plantão, quando as profissionais recebem as informações dos pacientes e assumem as responsabilidades do turno.

Durante essa fase, as métricas oculares indicaram maior carga cognitiva: o número de fixações e de sacadas era menor, as sacadas duravam menos tempo e a dispersão do olhar também diminuía. Em termos simples, as enfermeiras direcionavam a atenção a poucos pontos do ambiente, com movimentos rápidos e concentrados, refletindo um padrão típico de esforço mental elevado.

No decorrer do plantão, esses indicadores voltavam a se estabilizar, refletindo uma menor sobrecarga cognitiva após a adaptação às rotinas de cuidado e à estabilização dos pacientes.

Curiosamente, o diâmetro pupilar aumentava ao longo do turno, um achado que, à primeira vista, contradiz a ideia de que pupilas maiores indicam mais esforço mental. Os autores sugerem que fatores externos, como variações de luminosidade, fadiga e consumo de cafeína, podem influenciar essa medida fisiológica.

Quando o estresse altera o olhar

O estudo também investigou a relação entre o estresse e os movimentos oculares. A análise revelou padrões consistentes: quanto maior o nível de estresse, mais as enfermeiras apresentavam aumento no número de fixações e maior entropia visual, ou seja, seus olhares se tornavam mais dispersos e aleatórios, como se buscassem constantemente novos pontos de atenção. Ao mesmo tempo, o diâmetro pupilar e a duração das sacadas diminuíam, indicando que o estresse levava a uma atenção fragmentada e menos eficiente.

Esses achados se alinham com a teoria do controle atencional, onde a ansiedade prejudica a capacidade de manter o foco e aumenta a tendência a se distrair com estímulos periféricos. No ambiente crítico da UTI, essa oscilação do foco pode ter implicações diretas na segurança do paciente e no desempenho da equipe.

O estudo mostrou que o trabalho noturno estava particularmente associado a níveis mais altos de estresse fisiológico: a chance de apresentar um estado de estresse elevado era quase quatro vezes maior durante os turnos noturnos em comparação aos diurnos.

Dos olhos ao cérebro

A principal inovação do estudo está em demonstrar que o rastreamento ocular contínuo pode ser uma ferramenta poderosa para avaliar, em tempo real, o estado cognitivo de profissionais da saúde em situações reais, e não apenas em simulações. Diferentemente de escalas subjetivas como o NASA-TLX, o método permite observar flutuações de carga mental minuto a minuto, sem interromper o trabalho.

No futuro, os autores vislumbram sistemas capazes de integrar dados de pupila e fixação a plataformas de monitoramento hospitalar, alertando gestores quando o nível de carga cognitiva atingir um limiar crítico. Isso poderia permitir intervenções imediatas, como inserção pausas, redistribuição de tarefas e apoio psicológico, minimizando os riscos por sobrecarga cognitiva.

Além disso, a abordagem pode ser adaptada a outras áreas de alta pressão, como centros cirúrgicos, controle de tráfego aéreo ou operações industriais, onde o desempenho humano é decisivo e o erro pode custar vidas.

Os pesquisadores destacam que o ambiente real de UTI é imprevisível e repleto de variáveis difíceis de controlar, como diferenças individuais de experiência, estratégias de coping (enfrentamento), iluminação e até a evolução do paciente atendido. Assim sendo, essa junção de variáveis pode influenciar as medições oculares e os resultados.

Ainda assim, o trabalho de Ahmadi e colegas abre caminho para novos estudos em neuroergonomia aplicada à saúde, que busca compreender e otimizar a interação entre mente, corpo e tecnologia em contextos de trabalho críticos.

Ver o invisível

Na UTI, cada segundo e cada decisão importam. Mas o que muitas vezes passa despercebido, como o movimento dos olhos de quem cuida, pode ser uma maneira para entender o impacto nesse tipo de ambiente. “Nossos resultados mostram que o olhar pode funcionar como um termômetro do estresse e da carga mental”, escrevem os autores.

Ao transformar o olhar em dado, a pesquisa oferece mais do que um método, oferece empatia. Afinal, cuidar de quem cuida também exige ver além do que está diante dos olhos.

O artigo intitulado “Quantifying Workload and Stress in Intensive Care Unit Nurses: Preliminary Evaluation Using Continuous Eye-Tracking.”, foi publicado em 2024 na revista Human Factors e escrito por Nima Ahmadi, Farzan Sasangohar, Jing Yang, Denny Yu, Valerie Danesh, Steven Klahn e Faisal Masud.