Volante e distração cognitiva: quando pensar demais vira um risco

Volante e distração cognitiva: quando pensar demais vira um risco

O que a atividade cerebral revela sobre motoristas distraídos

Imagine estar dirigindo em uma rodovia movimentada enquanto tenta resolver uma conta de cabeça. Algo simples, como calcular o troco do mercado. Sem perceber, sua atenção visual diminui, sua mente se volta para a tarefa mental e, mesmo mantendo os olhos na estrada, seu cérebro já não está mais totalmente focado no que acontece ao redor. Um estudo recente mostrou que esse tipo de distração silenciosa pode alterar de forma profunda o funcionamento do cérebro durante a direção, podendo levar a consequências graves.

A distração invisível que coloca vidas em risco

Com o avanço dos sistemas de direção semiautônoma e o aumento da complexidade no trânsito urbano, cresce também a preocupação com os fatores que afetam o desempenho de motoristas. Distrações cognitivas, que envolvem o pensamento e o raciocínio, são mais difíceis de detectar do que aquelas visuais ou físicas. No entanto, elas podem comprometer significativamente a segurança na direção. Até pouco tempo, a maior parte dos estudos sobre o assunto era feita em laboratórios ou simuladores. Mas pesquisadores chineses decidiram dar um passo adiante: registrar o que acontece no cérebro dos motoristas durante a condução real de um carro em uma rodovia urbana.

Um experimento na estrada

O estudo, conduzido por Ruiwei Liu, Shouming Qi, Siqi Hao, Guan Lian e Yeying Luo, foi publicado em 2023 na revista Frontiers in Psychology. Os pesquisadores recrutaram 20 motoristas adultos, com experiência de direção e idade média de 34 anos. Todos os participantes passaram por testes em uma rodovia urbana de 10 quilômetros, com tráfego real e condições típicas do cotidiano.

Durante a condução, os motoristas usavam um capacete com sensores capazes de registrar a atividade elétrica do cérebro, por meio da eletroencefalografia (EEG), técnica amplamente utilizada nas pesquisas realizadas no laboratório da Bittar. Ao longo do trajeto, eles eram instruídos a realizar tarefas mentais com diferentes graus de complexidade, como cálculos simples e problemas matemáticos mais desafiadores, com o objetivo de induzir distintos níveis de carga cognitiva sem interferir diretamente na tarefa de dirigir.

Como o cérebro reage à sobrecarga mental

A escolha do EEG como ferramenta de investigação foi estratégica. A técnica permite medir, em tempo real, as oscilações elétricas do cérebro em diferentes faixas de frequência, como as ondas delta, theta, alfa e beta. Essas ondas estão associadas a diferentes estados mentais: atenção, esforço cognitivo, tensão e memória. Ao analisar as variações dessas frequências em diferentes regiões do cérebro durante a direção, os pesquisadores puderam mapear com precisão os efeitos das distrações mentais.

Os resultados chamaram atenção. À medida que a carga mental aumentava, a atividade cerebral nas áreas visuais, fundamentais para monitorar o trânsito, diminuía. Em contrapartida, houve um aumento da atividade em regiões relacionadas à audição, memória de trabalho e processamento verbal, indicando uma redistribuição dos recursos neurais. As ondas alfa e beta, por exemplo, cresceram com o esforço cognitivo, sinalizando maior carga mental e menor capacidade de resposta visual. As ondas theta, associadas à frustração e à elaboração de tarefas complexas, também se intensificaram conforme o desafio aumentava.

Um cérebro reorganizado ao volante

Entre as descobertas mais intrigantes do estudo está o fenômeno conhecido como acoplamento de fases, que se refere à sincronia entre diferentes regiões cerebrais. Mesmo sob sobrecarga mental, o cérebro manteve esse tipo de coordenação, o que indica que ele tentava manter o controle da direção mesmo com recursos limitados. Essa reorganização cerebral, no entanto, pode ser perigosa: ao redistribuir seus esforços para lidar com a tarefa mental, o motorista reduz sua capacidade de perceber mudanças rápidas no ambiente ao seu redor, como por exemplo um pedestre atravessando ou um carro freando de repente. Em outras palavras, ainda que o motorista mantenha os olhos na estrada e as mãos no volante, seu cérebro está parcialmente ausente da tarefa de dirigir.

Conectar mente, máquina e segurança

As implicações desses achados vão além da compreensão básica do comportamento humano. Elas apontam para um futuro em que veículos poderão ser equipados com sistemas capazes de monitorar a atividade cerebral do condutor em tempo real. Esses sistemas poderiam identificar sinais precoces de distração mental e ativar alertas ou medidas de assistência automatizada, como a desaceleração do carro ou o acionamento de controles semiautônomos. A ideia de um “carro que entende o cérebro do motorista” está mais próxima da realidade do que se imagina.

Além disso, os resultados reforçam a importância de campanhas educativas sobre os riscos de distrações cognitivas. Muitas vezes, motoristas acreditam que podem realizar tarefas mentais paralelas, como responder perguntas complexas, planejar o dia ou até mesmo resolver problemas pessoais enquanto dirigem. O estudo mostra que, embora a atenção pareça preservada externamente, o cérebro está funcionando de forma diferente e menos eficiente para a tarefa da condução.

A pesquisa representa um marco ao trazer dados reais sobre a atividade cerebral de motoristas em situação de tráfego urbano. A combinação entre neurociência e engenharia de transporte oferece um caminho promissor para tornar o trânsito mais seguro, inteligente e adaptado ao funcionamento do cérebro humano.

Como concluem os próprios autores, entender a relação entre mente e direção é essencial para desenvolver tecnologias mais eficazes e políticas públicas mais conscientes. Afinal, não é só o carro que precisa de manutenção e atenção, o cérebro do motorista também.

O artigo “Using electroencephalography to analyse drivers different cognitive workload characteristics based on on-road experiment.” é de autoria de Ruiwei Liu, Shouming Qi, Siqi Hao, Guan Lian e Yeying Luo.