Imagine estar diante de jogos em uma tela, organizando peças que caem sem parar. De início, você domina a tarefa com facilidade. Mas, à medida que a velocidade aumenta, sua atenção vacila, a frustração cresce e você percebe que sua mente está exausta. Agora, imagine que isso não acontece apenas em um jogo, mas em sua rotina de trabalho. Um novo estudo mostra que esse cenário, inspirado no clássico Tetris, pode revelar muito sobre como nosso cérebro lida com ambientes dinâmicos e desafiadores, e elucidar porque ele às vezes desiste antes mesmo de o corpo demonstrar sinais de estresse.
Pesquisadores da Universidade de Bristol (Reino Unido) e da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia criaram um experimento incomum: usar o Tetris como modelo para simular situações de carga cognitiva em ambientes profissionais. A pesquisa, publicada na revista Frontiers in Human Neuroscience, envolveu o monitoramento detalhado de 30 voluntários submetidos a diferentes níveis de dificuldade do jogo. Enquanto jogavam, os participantes também tinham que lidar com interrupções e eram monitorados por sensores que registravam desde atividade cerebral até suor na pele.
No artigo “Jogos que ensinam de verdade?”, exploramos como os jogos podem ativar regiões cerebrais associadas à aprendizagem, à atenção e à tomada de decisão. Já neste artigo, o foco é compreender como mente e corpo reagem à complexidade crescente de tarefas, buscando identificar quando e por que ocorre a chamada desistência cognitiva — momento em que a mente começa a “desligar” mesmo sem que o corpo apresente sinais fisiológicos claros de estresse.
A escolha do Tetris
Utilizar um jogo pode parecer inusitado, mas o Tetris oferece uma vantagem fundamental: é altamente manipulável. A velocidade de queda das peças pode ser ajustada de forma precisa, permitindo aos pesquisadores controlarem com rigor o nível de desafio. Além disso, o jogo exige tomada de decisão rápida, percepção visual e controle motor, ou seja, capacidades essenciais em diversas funções de trabalho modernas, como operadores de torres de controle, motoristas de transporte autônomo ou técnicos em centrais de monitoramento industrial.
Os participantes enfrentaram três cenários diferentes: uma versão fácil, com velocidade baixa e constante; uma versão difícil, com velocidade alta e constante; e uma versão com dificuldade progressiva, em que a velocidade aumentava ao longo do experimento. Além disso, precisavam realizar uma tarefa paralela: desligar alarmes sonoros aleatórios, que imitavam distrações típicas do ambiente de trabalho.
Durante as sessões de quatro minutos, os pesquisadores mediram simultaneamente a atividade cerebral (via fNIRS e EEG), os batimentos cardíacos (ECG) e a resposta galvânica da pele (ligada à sudorese e ativação do sistema nervoso autônomo). O conjunto de sensores permitiu um retrato multimodal da resposta humana ao estresse e à sobrecarga cognitiva.
Mente esgotada, corpo não

Os resultados foram claros: conforme a tarefa se tornava mais difícil, os participantes relataram aumento na sensação de frustração e queda na motivação. Questionários aplicados logo após as sessões mostraram que a versão difícil do Tetris foi percebida como desagradável e cansativa, enquanto a versão fácil foi considerada agradável e até divertida. A versão progressiva gerou avaliações intermediárias.
No entanto, quando os dados fisiológicos foram analisados, surgiu um paradoxo: os sinais clássicos de estresse corporal como frequência cardíaca, variabilidade dos batimentos e resposta galvânica da pele permaneceram praticamente estáveis entre as três condições. Em outras palavras, mesmo quando os jogadores relatavam estar mentalmente exaustos, seus corpos não apresentavam sinais de sobrecarga fisiológica.
Isso sugere que o cansaço mental pode preceder ou até ocorrer independentemente do estresse físico tradicionalmente medido. Uma das hipóteses dos autores é que a excitação fisiológica tenha sido “nivelada por cima” por conta do ambiente experimental: a tarefa paralela do alarme sonoro e o incentivo financeiro (um vale-presente para o melhor desempenho) podem ter mantido todos os participantes em estado elevado de ativação desde o início, mascarando diferenças sutis entre os níveis de dificuldade.
A desistência cognitiva
Mas os dados cerebrais contaram outra história. No início das sessões difíceis, o fNIRS registrou aumento da oxigenação no córtex pré-frontal dorsolateral, região que está associada ao controle executivo e à tomada de decisões sob pressão. Esse aumento indica maior esforço mental. Porém, à medida que a tarefa seguia, esse nível de ativação começou a cair, especialmente nas partidas mais desafiadoras. A interpretação? Os participantes estavam “desconectando” cognitivamente.
O EEG apoiou essa leitura: houve um aumento gradual na potência da banda Delta (1–4 Hz), comumente associada a estados de sonolência e desatenção. Ou seja, mesmo acordado e aparentemente engajado, o cérebro estava entrando em modo de baixa atividade, o que parece ser uma espécie de cansaço cerebral.
Esse comportamento, chamado na literatura de “desistência cognitiva”, pode representar um risco em ambientes de trabalho exigentes: o operador está presente, mas já não processa as informações de forma eficiente. O mais preocupante? Os sensores fisiológicos periféricos como batimentos cardíacos e suor não indicam que isso está acontecendo.
Repercussões para o mundo real
O estudo levanta uma questão importante: se os sinais fisiológicos clássicos não são sensíveis ao esgotamento mental, talvez seja hora de os sistemas de monitoramento mudarem de foco. Em vez de confiar apenas em indicadores como frequência cardíaca ou condutância da pele, empresas e indústrias que operam com riscos elevados poderiam considerar sensores que captam diretamente a atividade cerebral.
Imagine, por exemplo, uma torre de controle que adapta o fluxo de informações apresentado na tela conforme detecta que o operador está entrando em estado de fadiga mental, mas sem palpites, e sim por monitoramento em tempo real da oxigenação do cérebro ou do padrão de ondas cerebrais. Isso poderia reduzir erros humanos, aumentar a segurança e até melhorar a saúde mental no trabalho.
Além disso, o estudo destaca que a reação ao desafio é altamente individual. Nem todos os cérebros se esgotam no mesmo ponto. Identificar o “limiar de saturação cognitiva” de cada operador pode ser essencial para criar escalas de trabalho mais inteligentes, períodos de pausa mais eficazes e treinamentos personalizados que respeitem o ritmo de cada pessoa.
O artigo “fNIRS, EEG, ECG, and GSR reveal an effect of complex, dynamically changing environments on cognitive load, affective state, and performance, but not physiological stress.” é de autoria de Henrikke Dybvik, Christian Kuster Erichsen, Chris Snider e Martin Steinert.


